quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

E agora, quem poderá nos defender??



A privatização da cidade e dos espaços públicos não poupa ninguém, nem as manifestações populares nem a organização da cultura do povo de forma espontânea, plural, democrática, onde exista espaço para uma diversidade de expressões da sua produção artística. Em Salvador, o carnaval virou a festa da contradição.
É nessa festa que a cidade se mostra, que a nossa imensa concentração de renda e o empobrecimento do nosso povo sai do armário. Mais de 80% da população de Salvador sai da cidade durante a festa e o restante fica na cidade para trabalhar, estamos pagando essa festa pra quem?
As cordas e os camarotes abrigam turistas e privilegiados da terra, o movimento do turismo beneficia os grandes empresários e o retorno para a cidade é mínimo. Em contrapartida, Salvador investe em postos móveis de saúde, ambulâncias do SAMU e do corpo de bombeiros, na segurança ostensiva da PM, na limpeza das ruas e nos investimentos para obras que recuperem a depredação do espaço público causado pela festa. A verdade é que pagamos todos os anos por uma festa que tem nos trazido poucos benefícios, mas que tem nos custado muito caro!
A perda não é apenas material, mas também causa a descaracterização total da nossa cultura, da reafirmação dos fetiches e estigmas de uma baianidade que não tem nosso dendê. A retirada do Carnaval da pasta da Cultura pela gestão municipal de Salvador foi uma exigência dos empresários, a criação do conselho do carnaval, que é presidido pela Central do Carnaval, partiu da necessidade de fugir dos questionamentos sobre os rumos dessa festa.
Porque pagar por uma festa que não é feita para baianos nem por baianos, pois quem está à frente dos grandes blocos de axé são produtores do Sul e Sudeste, que não dá espaço para a diversidade de produções artísticas e culturais da nossa terra, que nos faz arcar com a despesa de uma infra-estrutura que serve apenas à festa e o ônus para a cidade é enorme?
Não sou contra o carnaval, pelo contrário, defendo o carnaval como a grande oportunidade do povo baiano levar às ruas a sua arte, a sua música, o seu ritmo e suas cores. O carnaval deveria ser o grande espaço cultural de toda a cidade! A nova gestão municipal ao fazer uma reunião apenas com os grandes blocos, dando espaço sempre às mesmas pessoas e minimizando o caráter tão diverso dessa festa apenas aos grandes blocos de axé, ela perpetua todas as contradições e desigualdades da festa como é organizada hoje. Além disso, exclui a grande massa de produtores culturais, pequenos blocos e organizações artísticas e culturais por nem ao menos convidá-los para discutir os rumos da festa. A proposta de realizar dois carnavais reafirmando esse caráter anti-popular da festa, faz com que o povo baiano pague duas vezes para repetir o mesmo erro! Por isso que quando ACM Neto fala em realizar duas carnavais em Salvador dessa forma, me soa mais como ameaça do que como proposta.


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