A eleição de
Dilma é, por si só, uma disputa de discurso ideológico. Para a direita,
desqualificar Dilma fez dela um “poste” , uma pupila tutelada por Lula com capacidade técnica, mas sem traquejo político, que ao ter
sido escolhida pelo ex-presidente para sucedê-lo, teve que exercitar a
política na prática. Para mim, a vitória de Dilma representa SIM o real
empoderamento das mulheres na política.
O exercício da
técnica profissional, sela ela qual for, depende da orientação
política e ideológica que nós damos a nossa expertise. O fato de Dilma ter
escrito sua história pautada na luta da esquerda brasileira fez com que ela
ocupasse cargos de suma importância, o que demandou não apenas uma
exigência técnica, mas sobretudo, a exigência da capacidade de
articulação política dentro e fora do Partido dos Trabalhadores. À frente do
Ministério de Minas e Energia e da Casa Civil, Dilma ocupou postos de
liderança que anteriormente só haviam sido ocupados por homens e ao chefiar o
PAC, um dos carros-chefes do primeiro governo Lula, Dilma fez
parte da retomada do crescimento do país através do investimento em
infra-estrutura, abandonado desde o golpe militar no Brasil, e o
início da disputa dos serviços públicos essenciais com políticas públicas
específicas que serviram de diretrizes para uma série de programas do governo
Lula.
Nada disso se faz apenas com técnica e nem por um poste. Propor uma nova
política de crescimento para o país depende da disputa de projeto de
nação que está na pauta do governo e também, da compreensão das múltiplas forças
políticas que estão em disputa tanto no campo público, quanto no
privado.
Na eleição de
Dilma, o Bolsa Família continuou como política central do governo,
entendendo a importância do programa para a garantia de uma série de novos
direitos para uma parcela enorme da população brasileira que até então,
era invisível para estado. Dilma não só entendeu o Bolsa Família
como um programa que trazia um recorte de classe bem claro, mas foi além e o utilizou de modo que essa política empoderasse as mulheres, cadastrando o benefício
em nome delas. A autonomia financeira feminina tem a ver com uma série de
rupturas do patriarcado e mexe nas estruturas familiares e sociais,
atinge do dilema da violência doméstica até a saída das mulheres do ambiente
privado e o ganho do ambiente público, demandando novas políticas públicas
que garantam os direitos da maior parcela da população do país, as
mulheres.
A garantia de
crédito para mulheres trabalhadoras rurais, a regulamentação do trabalho
doméstico e o aumento real do salário mínimo foram avanços fundamentais para
dar início à construção, por vias institucionais, de um projeto
político para o país onde o estado admite a existência do machismo em
todas as instâncias da sociedade.
Ainda no início do governo Dilma, o
programa “Rede Cegonha” se tornou um dos principais programas nas áreas de
saúde e assistência no Brasil. Pode-se até questionar o fato de que deve se considerar
também a não escolha pela maternidade e o drama dos abortos clandestinos no
Brasil, principal causa de morte entre as mulheres. Porém, até a
disputa pelo aborto legal e seguro deve ser entendida como a luta pela
construção de redes de proteção, inclusão e empoderamento das mulheres,
impossível de ser feito sem levá-los em consideração.
Nesta segunda
fase do governo Dilma, um dos principais programas do governo federal é
o Brasil Carinhoso. Mais uma vez as mulheres aparecem demandando uma das
principais políticas de governo. O Brasil carinhoso ao estabelecer diretrizes
para a educação na primeira infância e para as políticas de creches públicas,
consegue atingir diretamente as mulheres beneficiadas por programas como o
Bolsa Família, mulheres rurais que entraram na pauta do governo e as
mulheres que deixaram de ser trabalhadoras informais e que agora recebem o
direito ao trabalho regulamentado pelo estado. Essas mulheres são em sua maioria, mulheres pobres, semi-analfabetas e negras. Portanto, o governo Dilma vai além e garante através dessa
política, o recorte de classe, de gênero e de raça, mexendo mais uma vez na
estrutura familiar pré-estabelecida, onde a mulher ocupa o papel central
do cuidado familiar no espaço privado do lar.
Além disso,
o programa assegura aos filhos e filhas dessas trabalhadoras, o direito
ao ingresso na rede de educação pública ainda na primeira infância, fase
fundamental para o estímulo do aprendizado. Todas essas políticas de governo
representam o espaço real de disputa e diálogo entre o governo Dilma e os
diversos movimentos de mulheres organizadas em todo o Brasil. Bandeiras de
lutas históricas de diversos movimentos sociais feministas estão refletidas em
todas essas políticas públicas, por isso, é preciso deixar que
apenas a direita faça esse debate machista da técnica neutra e alienada, pois
como mulher e feminista, não tenho crise nenhuma de afirmar que Dilma me
representa, pois existe em seu governo um terreno fértil de disputa para
a promoção de políticas que estejam em consonância com a construção de um
projeto solidário e feminista para o Brasil.


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