* Por Léa Marques
No Brasil, nos últimos dez anos, a agenda de políticas
públicas de juventude avança e modifica-se, institucionalizando-se e
compreendendo cada vez mais a juventude enquanto sujeito de direitos. Ao mesmo
tempo, a consolidada agenda de políticas públicas para mulheres inflexiona-se
passando a ter centralidade as políticas que possam contribuir para a
construção da autonomia econômica das mulheres.
A construção da agenda das jovens mulheres e do mundo do
trabalho são movimentos positivos, mas em ambos as mulheres jovens têm pouca
visibilidade e na maioria das vezes não são compreendidas em suas diversidade e
complexidade.
Construir uma agenda de políticas para as jovens mulheres no
campo do trabalho requer a compreensão deste cenário e mais do que isso, requer
a construção histórica deste sujeito político.
Este artigo busca contribuir neste desafio ao dar
visibilidade ao tema, ao traçar o cenário no qual as políticas públicas de
juventude e as de mulheres estão inseridas, ao retratar as principais
características das jovens mulheres no mercado de trabalho, e ao apontar
caminhos necessários para seu avanço.
Juventude e Mulheres
nas Políticas Públicas
A partir dos anos 90 observamos as primeiras iniciativas de
programas e ações específicas para jovens, marcados fortemente pela ótica da
prevenção e controle da juventude. Isso se expressou, por exemplo, na criação
de programas esportivos, culturais e de trabalho orientados para o controle
social do tempo livre dos jovens, destinados especialmente aos moradores dos
bairros periféricos das grandes cidades brasileiras. Nesta década, também foram
criados os primeiros órgãos de juventude em alguns municípios do país.
Nos últimos dez anos, o tema ganha força no debate sobre as
políticas públicas no Brasil. Observamos um crescimento significativo dessas
experiências e um fortalecimento do debate, que produz reflexões importantes
para que a juventude passe a ser tomada como foco de ação.
Normalmente vista como fase problemática, vulnerável ou
transitória para a vida adulta, a juventude passa cada vez mais a ser encarada
a partir de sua integralidade, e avança a consideração dos/as jovens enquanto
sujeitos de direitos e como atores necessários na discussão e formulação das
políticas públicas voltadas a eles.
Um marco nessa mudança de enfoque desdobra-se, em 2005 na
criação da Secretaria Nacional de Juventude (SNJ), do Conselho Nacional de
Juventude (Conjuve) e do Programa Nacional de Inclusão de Jovens (ProJovem). E
ainda, na conquista, em 2010, da Emenda Constitucional 65, que incluiu a
palavra “jovem” na Constituição Federal, estabelecendo como juventude a parcela
da população com faixa etária entre 15 e 29 anos.
Paralelamente à consolidação do campo de políticas públicas
para juventude no Brasil, o debate sobre políticas públicas para as mulheres
também avança e ganha uma nova dimensão.
Fruto da luta histórica e secular das mulheres, algumas
conquistas nas últimas décadas no Brasil passam a se concretizar: ampliação da
presença no mercado de trabalho, aumento do nível de escolaridade, presença
maior em diversos âmbitos do mundo público, indícios de mudanças do papel das
mulheres nas unidades familiares. Contudo, ainda com fortes embates, reações e
discriminações.
No âmbito governamental, a agenda das políticas públicas
para as mulheres, até recentemente, teve como centralidade o urgente combate à
violência sexista. Esta centralidade resultou na imprescindível aprovação da
Lei Maria da Penha, em 2006. Com a aprovação desta Lei, a questão da violência
sexista passou a ser encarada não mais como problema particular de pequeno
potencial ofensivo e foi colocada como agenda pública, como um crime a ser
combatido que é parte do machismo estruturante de nossa sociedade. E assim,
ajudou a abrir caminhos para agregar outro ponto de vista sobre as políticas
públicas para as mulheres, que é o olhar a partir da construção das condições
para a autonomia, especialmente a autonomia econômica e o direito ao trabalho.
Homens e mulheres devem ter igual direito de acesso a um
trabalho decente, com salários dignos, condições de saúde adequadas, garantia
de direitos trabalhistas e de organização sindical. Esses aspectos, associados
à inexistência de qualquer forma de discriminação são essenciais para reverter
um processo de pobreza e para construção da autonomia econômica das mulheres.
Com este entendimento, ao focar o debate na autonomia econômica, a agenda das
políticas públicas das mulheres traz ao centro do debate a necessidade do
reconhecimento do direito do trabalho das mulheres e o questionamento à divisão
sexual do trabalho.
A divisão sexual do
trabalho e as jovens mulheres
A “divisão sexual do trabalho” é baseada em dois princípios.
O primeiro é da separação, isto é, há atividades que são consideradas como
exclusivamente de homens e outras que são tidas como exclusivamente de
mulheres. Assim, temos um modelo de sociedade no qual as mulheres são
responsabilizadas pelo chamado trabalho reprodutivo, de cuidados com a
reprodução da vida humana, de realização de tarefas domésticas e de cuidar dos
filhos, marido, idosos e doentes. Ao passo em que aos homens atribui-se a
responsabilidade pelo trabalho produtivo, de produção de mercadorias, realizado
fora de casa.
O segundo princípio é o da hierarquização, que valoriza o
trabalho produtivo em detrimento do reprodutivo. O trabalho dos homens tem mais
reconhecimento e valorização social. Deste modo, a divisão sexual do trabalho é
a base material da opressão das mulheres e da perpetuação das desigualdades
entre os sexos.
Apesar das conquistas citadas, a divisão sexual do trabalho
ainda é uma realidade e a desigualdade entre homens e mulheres não foi rompida.
O trabalho de cuidados continua a ser tratado como uma questão apenas das
mulheres, ao invés de ser tratado como um assunto público, de interesse de toda
sociedade. Ao mesmo passo em que as mulheres têm que administrar seu tempo para
o trabalho de cuidado e para o trabalho remunerado, em busca de autonomia
econômica e financeira.
A condição de ser mulher é para a vida inteira, enquanto ser
jovem compreende somente um período da vida. Porém, já na juventude se
manifestam condições da divisão sexual do trabalho que deixarão conseqüências
para toda vida das mulheres e que refletem fortemente na situação destas no
mercado de trabalho.
Cenário para
construção de uma agenda política para jovens mulheres
Ao propormos fazer um debate sobre a construção de uma
agenda política das jovens mulheres no campo do mundo do trabalho esse
redimensionamento nas políticas públicas para mulheres e a consolidação da
juventude, enquanto sujeito de direitos contribuem excessivamente e precisam
ser levados em consideração.
É desde a juventude que as desigualdades de gênero se
expressam. Os indicadores de juventude,
por exemplo, demonstram um forte componente de gênero.
Sabemos que a juventude brasileira é uma juventude
trabalhadora, dado que mais de 70% desta está participando do mercado de
trabalho (empregada ou procurando emprego). Desta juventude, a maioria tenta
conciliar educação e trabalho. E no caso das jovens mulheres especialmente,
buscam conciliar trabalho, educação e responsabilidades familiares/ domésticas.
Os eventos que mais caracterizam a juventude são a
freqüência à escola e/ou a participação no mercado de trabalho. Entretanto,
para as mulheres jovens, de 15 a 29 anos, casamento e maternidade ainda são os
eventos mais importantes na sua inserção social, ainda que a participação na
escola e no mercado de trabalho tenha crescida nos últimos anos.
Entre 2000 e 2010 aumentou o número de jovens que não
estudavam nem trabalhavam (os chamados “nem-nem”). Saíram de 16,9% do total da
população jovem para 17,2%. O crescimento foi diferenciado por sexo, visto que
entre os homens aumentou em 1.107 mil, e entre as mulheres diminui 398 mil. Mas
estes dados significam que do total das mulheres jovens 23,2% não trabalham e
não estudam, mais de 6 milhões, enquanto que os homens nessa condição são
11,2%, menos de 3 milhões.
A posição familiar desses jovens apresenta também um forte
componente de gênero: grande maioria dos homens “nem-nem” residiam como
filhos/netos, ou seja dependiam dos pais ou avós (83,7%), enquanto que entre as
jovens mulheres mais de 66% vivem como cônjuges, e 61% já tinham filhos. Isso
nos permite afirmar que parte significativa dessas mulheres tem família e está
desempenhando o tradicional papel de mãe e dona de casa.
Estes jovens “nem-nem” em sua enorme maioria não são os
filhos da elite, que podem optar por não trabalhar e não estudar. Pelo
contrário, são jovens de baixa renda, que tem como rendimento médio domiciliar
R$ 1.621,86. Para efeito comparativo, entre os jovens que trabalham e estudam,
o rendimento médio domiciliar é de R$ 3.024,34.
As jovens mulheres
rurais
No contexto rural, a invisibilidade do trabalho feminino
juvenil parece ser ainda mais intensa, isto porque grande parte do trabalho que
contribui para o sustento da família ocorre dentro do próprio lar, por meio das
atividades voltadas para o consumo da família e do trabalho que envolve a
participação de todos os membros da família. O trabalho familiar implica o
envolvimento dos diferentes membros da família na produção, seja para o
auto-consumo ou para a venda. No entanto, grande parte deste trabalho aparece
apenas como complementar.
A divisão do trabalho no meio rural segue, portanto, a
lógica patriarcal e da divisão sexual do trabalho que mantém invisível o
trabalho feminino e responsabiliza as mulheres pelas tarefas de reprodução e
considera a pessoa do sexo masculino como aquela responsável pelo provimento e
“chefe” da família.
Além de grande parte do trabalho feminino juvenil rural não
ser remunerado, o reduzido acesso de crianças à creche ou pré-escola contribui
para sobrecarregar a jornada de trabalho das mulheres jovens rurais.
Jovens mulheres no
mercado de trabalho
De acordo com a síntese da situação juvenil no mercado de
trabalho brasileiro, apresentada na Agenda Nacional de Trabalho Decente para
Juventude, entre as mulheres que estão no mercado de trabalho, grande parte
está presente em ocupações que indicam maior precariedade: trabalho sem
carteira assinada, com longas jornadas, baixos salários, locais insalubres e
trabalho doméstico sem carteira assinada. A despeito da maior escolaridade
alcançada pelas jovens, elas têm menos acesso ao trabalho com carteira assinada
em relação aos rapazes.
Entre as jovens mulheres que conseguem cursar faculdade,
muitas se inserem em profissões relacionadas ao cuidado, e que por serem
tradicionalmente identificadas com habilidades “naturais” das mulheres,
oferecem baixos salários a elas.
Entre as jovens mulheres apenas com ensino fundamental ou
médio, as ocupações de empregada doméstica, atendente de telemarketing,
cabeleireira, manicure, vendedoras e recepcionistas englobam majoritariamente
as possibilidades de emprego oferecidas às jovens mulheres na área urbana.
Em ambos os casos, a trajetória da jovem mulher no emprego é
fortemente marcada por discriminações sexistas, inclusive sendo elas o maior
alvo do assédio moral e sexual.
Jovens mulheres e as
reivindicações nas agendas públicas
A condição das jovens mulheres no acesso e permanência ao
mercado de trabalho é diferenciada e requer políticas que possam dar conta
desta dimensão geracional e de gênero.
A tarefa de construção de uma agenda políticas das jovens
mulheres no campo do trabalho não é fácil. Tendo como parâmetro os espaços das
Conferências Públicas construídas pelo governo federal nos últimos anos, com
ampla participação e mobilização social, podemos afirmar que o tema ainda não
está consolidado nem entre a juventude e nem entre as mulheres.
Na resolução final da III Conferência Nacional de Políticas
para as Mulheres, no eixo de Autonomia econômica e social encontramos duas
resoluções generalistas:
• Fomentar a participação de mulheres jovens, em sua
diversidade, garantindo e fiscalizando a aplicabilidade da lei que oferece às
mulheres adolescentes o primeiro emprego e o programa aprendiz.
• Garantir possibilidade de geração de trabalho e renda às
jovens que cumprem medidas sócio-educativas.
Na resolução final da 2ª Conferência Nacional de Juventude,
no eixo de Desenvolvimento Integral, onde se localizam as propostas sobre
trabalho, não foi aprovada nenhuma proposta com menção às jovens mulheres.
Um importante instrumento nas consolidações das políticas de
juventude no campo do trabalho é a Agenda Nacional de Trabalho Decente para
Juventude (ANTDJ). Documento lançado em 2012, construído através da coordenação
conjunta da Secretaria- Geral da Presidência da República, por meio da
Secretaria Nacional de Juventude, e pelo Ministério do Trabalho e Emprego, com
a assistência técnica da OIT, e composto por representantes de trabalhadores,
empresários, órgãos governamentais e com participação do Conjuve.
Na ANTDJ há, entre as quatro prioridades, uma específica
sobre igualdades de oportunidades e tratamento, com uma linha de ação sobre
“Igualdade de oportunidades e combate à discriminação”. O caminho para
consolidação destas linhas de ações é a divulgação e transformação da ANTDJ em
um Plano de Ação de Trabalho Decente para Juventude, com metas, responsabilizações
e programas concretos para sua implementação.
A agenda das jovens
mulheres no mundo do trabalho
Construir propostas que viabilizem a autonomia econômica das
jovens mulheres e a construção da igualdade exige pensar políticas que rompam
com a divisão sexual do trabalho, ou seja, políticas que permitam o acesso e a
permanência das mulheres no mercado de trabalho, em condições de igualdade aos
homens e que, paralelamente, as livre da exclusiva responsabilização com os
trabalhos domésticos/ familiares (tais como os restaurantes populares e as
creches públicas).
É preciso também implementar políticas para que as jovens
não tenham que trabalhar tão cedo, ou seja, que estas possam ter o direito de
terminar seu ciclo educacional, e somente depois ingressar no mercado de
trabalho, com condições mais favoráveis de acessar um trabalho não precário.
Além disso, é necessário promover a oferta de orientação profissional que
problematize as ocupações tradicionalmente femininas e masculinas.
Os caminhos para a construção da autonomia econômica das
jovens mulheres exigem rompimentos nas relações machistas de nossa sociedade,
de forma que elas possam se fortalecer como indivíduos autônomos, capazes de
projetar seu futuro. São centrais, nesse âmbito, além das políticas públicas
voltadas à construção da autonomia econômica, as condições adequadas para a
iniciação na esfera da sexualidade e das relações afetivas, o direito das
jovens ao território, de escolha em relação à maternidade, à experimentação e à
vida segura e especialmente, o direito à participação.
Será somente a partir da visibilidade deste tema, da
problematização, do amplo debate entre academia, movimentos sociais e governo
que será possível avançar nesta construção.
Mas, sobretudo, serão as jovens mulheres, em sua diversidade
e complexidade, o sujeito histórico com a responsabilidade e capacidade de
construir a agenda política para sua emancipação.
Fonte: Democracia Socialista