sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Dilma, empoderamento das mulheres e o discurso machista convincente.


A eleição de Dilma é, por si só, uma disputa de discurso ideológico. Para a direita, desqualificar Dilma fez dela um “poste” , uma  pupila tutelada por Lula com capacidade técnica, mas sem traquejo político, que ao ter sido escolhida pelo ex-presidente para sucedê-lo, teve que exercitar a política na prática. Para mim, a vitória de Dilma representa SIM o real empoderamento das mulheres na política.

O exercício da técnica profissional, sela ela qual for, depende da orientação política e ideológica que nós damos a nossa expertise. O fato de Dilma ter escrito sua história pautada na luta da esquerda brasileira fez com que ela ocupasse cargos de suma importância, o que demandou não apenas uma exigência técnica, mas sobretudo, a exigência da capacidade de articulação política dentro e fora do Partido dos Trabalhadores. À frente do Ministério de Minas e Energia e da Casa Civil, Dilma ocupou postos de liderança que anteriormente só haviam sido ocupados por homens e ao chefiar o PAC, um dos carros-chefes do primeiro governo Lula, Dilma fez parte da retomada do crescimento do país através do investimento em infra-estrutura, abandonado desde o golpe militar no Brasil, e o início da disputa dos serviços públicos essenciais com políticas públicas específicas que serviram de diretrizes para uma série de programas do governo Lula.

Nada disso se faz  apenas com técnica e nem por um poste. Propor uma nova  política de crescimento para o país depende da disputa de projeto de nação que está na pauta do governo e também, da compreensão das múltiplas forças políticas que estão em disputa tanto no campo público, quanto no privado.

Na eleição de Dilma, o Bolsa Família continuou como política central do governo, entendendo a importância do programa para a garantia de uma série de novos direitos para uma parcela enorme da população brasileira que até então, era invisível para estado. Dilma não só entendeu o Bolsa Família como um programa que trazia um recorte de classe bem claro, mas foi além e o utilizou de modo que essa política empoderasse as mulheres, cadastrando o benefício em nome delas. A autonomia financeira feminina tem a ver com uma série de rupturas do patriarcado e mexe nas estruturas familiares e sociais, atinge do dilema da violência doméstica até a saída das mulheres do ambiente privado e o ganho do ambiente público, demandando novas políticas públicas que garantam os direitos da maior parcela da população do país, as mulheres.

A garantia de crédito para mulheres trabalhadoras rurais, a regulamentação do trabalho doméstico e o aumento real do salário mínimo foram avanços fundamentais para dar início à construção, por vias institucionais, de um projeto político para o país onde o estado admite a existência do machismo em todas as instâncias da sociedade.

 Ainda no início do governo Dilma, o programa “Rede Cegonha” se tornou um dos principais programas nas áreas de saúde e assistência no Brasil. Pode-se até questionar o fato de que deve se considerar também a não escolha pela maternidade e o drama dos abortos clandestinos no Brasil, principal causa de morte entre as mulheres. Porém, até a disputa pelo aborto legal e seguro deve ser entendida como a luta pela construção de redes de proteção, inclusão e empoderamento das mulheres, impossível de ser feito sem levá-los em consideração.

Nesta segunda fase do governo Dilma, um dos principais programas do governo federal é o Brasil Carinhoso. Mais uma vez as mulheres aparecem demandando uma das principais políticas de governo. O Brasil carinhoso ao estabelecer diretrizes para a educação na primeira infância e para as políticas de creches públicas, consegue atingir diretamente as mulheres beneficiadas por programas como o Bolsa Família, mulheres rurais que entraram na pauta do governo e as mulheres que deixaram de ser trabalhadoras informais e que agora recebem o direito ao trabalho regulamentado pelo estado. Essas mulheres são em sua maioria, mulheres pobres, semi-analfabetas e negras. Portanto, o governo Dilma vai além e garante através dessa política, o recorte de classe, de gênero e de raça, mexendo mais uma vez na estrutura familiar pré-estabelecida, onde a mulher ocupa o papel central do cuidado familiar no espaço privado do lar.

Além disso, o programa assegura aos filhos e filhas dessas trabalhadoras, o direito ao ingresso na rede de educação pública ainda na primeira infância, fase fundamental para o estímulo do aprendizado. Todas essas políticas de governo representam o espaço real de disputa e diálogo entre o governo Dilma e os diversos movimentos de mulheres organizadas em todo o Brasil. Bandeiras de lutas históricas de diversos movimentos sociais feministas estão refletidas em todas essas políticas públicas, por isso, é preciso deixar que apenas a direita faça esse debate machista da técnica neutra e alienada, pois como mulher e feminista, não tenho crise nenhuma de afirmar que Dilma me representa, pois existe em seu governo um terreno fértil de disputa para a promoção de políticas que estejam em consonância com a construção de um projeto solidário e feminista para o Brasil.