segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Dia das Marias de verdade

Não sei se isso acontece com todas as mulheres, mas perceber as opressões me fez mais solidária com outras mulheres e me fez tomar as mulheres que resistem a essas opressões como referência. Começando por minha avó, meu primeiro exemplo de mulher forte. Dona Isaura abriu mão da sua vida íntima, amorosa e afetiva para abraçar o trabalho e ter condições de criar os filhos que meu avô abandonou na casa dela. A história de vida da minha avó se confunde com a história de milhares de mulheres no mundo todo, mulheres que chefiam as suas famílias sozinhas e sem a ajuda dos seus ex-companheiros.

Assim que o homem aborta seus filhos da forma mais cruel, filhos que não são mais um conjunto de células indiferenciadas nem fetos, filhos que são crianças, adolescentes, jovens formados e que sabem da existência de um pai ausente, a mulher se coloca de prontidão pra assumir sozinha a família, com dona Isaura foi assim.
Certamente quando minha mãe percebeu minha avó não como mãe, mas como mulher, ela se entendeu feminista. Acho que é assim que as mulheres nascem.

Demorei também pra perceber minha mãe como mulher. Parece besteira, mas a maternidade como é criada no nosso imaginário faz a gente anular as mulheres como sujeito e elas viram mães, as que cuidam, as que largam tudo em nome dos seus filhos, as que esquecem delas mesmas para padecer num paraíso de sofrimento. Como não sou dada ao sofrimento, rejeitei a ideia da maternidade desde muito cedo sem nem saber de forma tão clara porque.

Enxerguei minha mãe como mulher não faz muito tempo. Mulher que tem desejos, que erra, que também não é dada ao sofrimento e que nem merece sofrer, que precisa de apoio, cuidado, companheirismo e solidariedade. Isso bastou para mudar minha relação com minha mãe e a mim mesma. Descobrir a mulher que existe por trás do papel da família é também se descobrir. Talvez aí eu tenha entendido o feminismo como uma arma para existir.

As pessoas costumam, principalmente os homens, é claro, dizer que eu vejo machismo em tudo, como se, na verdade, o culpado não fosse o próprio machismo que está em todos os lugares, inclusive na família.
No dia do meu aniversário, eu dedico meu dia às minhas Marias, que nada tem a ver com a Maria cristã imaculada e passiva, mas às Marias de verdade, que resistem, que lutam e que me criaram pra ser mais um foco de resistência no mundo. Minhas Marias são como todas as outras Marias do mundo que são feministas sem nem saberem disso!

Que o ano de 2013 seja o ano da solidariedade, que as mulheres percebam que todas nós nascemos ocupando um papel que nos deram e que é preciso resistir e lutar contra isso! Que cada mulher violentada, assassinada, estuprada nos incomode como se tivesse acontecido com nós mesmas, pois poderia ter acontecido de fato com qualquer uma de nós. Conhecer a realidade das mulheres e se indignar é lutar por um mundo melhor para todas nós. Feliz ano novo!


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